19.4.07


Há pessoas que somam.
Há pessoas que somem.


Há pessoas que fazem fila.
Há pessoas que ficam na fila.

12.4.07

Há pessoas que deixam rasto.
Há pessoas que deixam raiva.

Bouquet

10.4.07

Everybody is free to wear sunscreen, Mary Schmich (1977)


If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long term benefits of sunscreen have been proved by scientists whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience…
I will dispense this advice now. Enjoy the power and beauty of your youth; oh nevermind; you will not understand the power and beauty of your youth until they have faded. But trust me, in 20 years you’ll look back at photos of yourself and recall in a way you can’t grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked…
You’re not as fat as you imagine. Don’t worry about the future; or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubblegum. The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind; the kind that blindside you at 4pm on some idle Tuesday.
Do one thing everyday that scares you.
Sing.
Don’t be reckless with other people’s hearts, don’t put up with people who are reckless with yours.
Floss.
Don’t waste your time on jealousy; sometimes you’re ahead, sometimes you’re behind… the race is long, and in the end, it’s only with yourself. Remember the compliments you receive, forget the insults; if you succeed in doing this, tell me how. Keep your old love letters, throw away your old bank statements.
Stretch.
Don’t feel guilty if you don’t know what you want to do with your life…the most interesting people I know didn’t know at 22 what they wanted to do with their lives, some of the most interesting 40 year olds I know still don’t.
Get plenty of calcium.
Be kind to your knees, you’ll miss them when they’re gone.
Maybe you’ll marry, maybe you won’t, maybe you’ll have children, maybe you won’t, maybe you’ll divorce at 40, maybe you’ll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary… what ever you do, don’t congratulate yourself too much or berate yourself either.
Your choices are half chance, so are everybody else’s. Enjoy your body, use it every way you can… don’t be afraid of it, or what other people think of it, it’s the greatest instrument you’ll ever own.
Dance…even if you have nowhere to do it but in your own living room. Read the directions, even if you don’t follow them.
Do NOT read beauty magazines, they will only make you feel ugly. Get to know your parents, you never know when they’ll be gone for good. Be nice to your siblings; they are the best link to your past and the people most likely to stick with you in the future. Understand that friends come and go, but for the precious few you should hold on. Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle because the older you get, the more you need the people you knew when you were young.
Live in New York City once, but leave before it makes you hard; live in Northern California once, but leave before it makes you soft.
Travel.
Accept certain inalienable truths, prices will rise, politicians will philander, you too will get old, and when you do you’ll fantasize that when you were young prices were reasonable, politicians were noble and children respected their elders.
Respect your elders.
Don’t expect anyone else to support you. Maybe you have a trust fund, maybe you have a wealthy spouse; but you never know when either one might run out. Don’t mess too much with your hair, or by the time you're 40, it will look 85.
Be careful whose advice you buy, but, be patient with those who supply it. Advice is a form of nostalgia, dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts and recycling it for more than it’s worth.
But trust me on the sunscreen.


5.4.07

Peguei em ti


Fui ter contigo a tua casa. Fui todas as vezes que me pediste e foram muitas. Abria a porta principal para entrar na escuridão em que estavam sempre as paredes. Nenhuma janela aberta.
Nenhum cortinado afastado. Apenas o negro e o tabaco.

Pegava em ti e levava-te para o quarto. Queria fazer amor contigo. Queria tanto que nem sabia.
Antes mesmo de começar já tínhamos parado. Ela já te tinha dado todo o prazer que precisavas
e como habitual sugou-te todo. Chupou-te até ao fim, até aos restos, para que nem isso ficasse para mim. Peguei em ti e levei-te para a cama, sem ter ido. Escolheste a mais pura e branca companhia que podias ter.

Discutimos. Não. Discuti sozinha, porque já não querias saber. Desci as escadas embalada na promessa que nunca mais voltava.
Entrei em tua casa porque não me pediste. Fechei a porta à chave. Quatro voltas.
Afastei todos os cortinados e abri todas as janelas. Queria cobrir a casa de luz e ar.
Deixei que o fumo saísse e o pó acabasse. Fiquei a ver-te tremer de suor e a odiar-me.
Quando paraste, peguei em ti e levei-te para a vida.

Inspirado e dedicado à Sofia Rijo

O suficiente não chega


Entre o medíocre e o bom passa-se a vida. Ficamos a meio, porque é suficiente.
Mas será o suficiente para viver, ou é o ir vivendo?
O suficiente não nos faz ganhar uma bolsa de estudos, nem conquista cargos de administração. Não dá prémios nem distinção. O suficiente não tem consideração.
O suficiente não chega para nos fazer corar nem impressionar. O suficiente não é feio, mas não tem brilho nem poses de sedução. Não chega a ser amor para o resto da vida, mas é o suficiente para ter essa ilusão.
O suficiente mal nos paga a casa e não nos deixa viajar. Chega para ir, mas não para voltar. Não chega para sermos felizes, mas é o suficiente para nos matar.
É o vazio depois do prato vazio, que não é o suficiente para nos calar por dentro.
É o que não chega, mas é o suficiente, por não sabermos o quanto falta para mais.
É a manifestação em que uns lutam e outros acham que ver lutar é o suficiente para mudar. É criticar o país mas não ser corajoso o suficiente para o deixar.
É ser injustiçado, mas achar que não foi o suficiente para protestar. É ser mal servido e dizer deixa estar.
É não querer ser melhor cada dia, porque ser o suficiente já é bom.
Entre o suficiente e o medíocre passa-se a vida. Ficamos a medo.
Mas, quando é que já chega de suficiente?

(Junho 2006)

Ele está à espera


Há pessoas que ficam bonitas nas fotografias.
Há pessoas que ficam bonitas na vida.

14.3.07

Cor tradição Verde contradição


Será verde a cor do que sinto? Não me parece que já esteja maduro o fruto que trago comigo. Fico assim, entre este verde, cor de absinto e o bandeira que tenho no coração. Na dúvida, decido esperar para que o verde mostre todos os seus pantones de cor, de uma mistura entre CMYC ou RGB.
A esperança é a última a morrer e verde é também a cor para viver. Queria que fosse um verde escuro, cor de garrafa, daqueles fortes que nos dão tudo e não pedem nada.

No fim vem a conclusão: esperar que o verde fique maduro é um erro e uma contradição.

13.3.07

Eu depois devolvo


Preciso de tempo.

Primeiro para me lembrar de tudo.
Depois para esquecer
Preciso de tempo.
Para saber o espaço da tristeza
e o tamanho da desconfiança.
Preciso de tempo.
Para estar só,
e para depois poder estar com alguém
Mas sou tão má gestora do meu tempo,
que só peço vários intervalos.
Absorvo tudo ao mesmo tempo.
Preciso de mais,
talvez um prolongamento.
Prometo que depois compenso.
Devolvo o tempo.

12.3.07

Luz vaga - Mesa


Luz vaga, luz vesga, a tua cruz
Já não sai da cama, a minha luz

Da sala, do quarto

Pilha a palavra
Troca a quantidade, do assunto modal
A tensão está normal
O lábio fora da boca,
A boca fora do mal

Os teus olhos não são de gente
O teu ar foge para cima
Tens a perna no cimento,
Tens a mão no pensamento

Ciclope, cicloturismo
Na parte de fora, na nesga do abismo
Imaginário que remete, para onde ainda não fui

Convite ao Universo
Com a tua própria câmara
Fecho a luz num olho
Prego a tábua à sensação

Som da casa, quando não estás...

Dancei para te ver aqui,
eu sei que nada mais pode me ajudar
É do nono andar? Sim
Quis pedir ajuda, mas a língua estava morta
Sei lá! Parei de olhar,
tenho uma corda acesa, prestes a queimar
Não és capaz de me levar a sério.
Vou saltar em teu lugar.

Sei que nada mais pode me ajudar

Atrasa o passo
Leva o lenço à boca
Fica na mira do choque frontal
Não é doença, é um animal
Um ruído feito no acto de fingir
seres mau, mesmo a dormir.

2.3.07

Era uma vez


Era uma vez um texto que não queria ser só um texto. Ele queria ser lido e comentado. Ele queria ser famoso. Este texto queria ser complexo e cheio de conteúdo, daqueles que mexem contigo e com o mundo. Ele queria ser daqueles textos que se lê e sublinha, que quase se sabe de cor, daqueles textos que se partilha com os amigos, se envia a todos no trabalho e se imprime. Daqueles que guardamos nos favoritos. Ele queria ser brilhante. Este texto tinha pretensões em ficar na história, em deixar uma marca. Então começou a trabalhar para o ser. Acrescentou mais adjectivos, vocabulário rico, fez frases de oito orações e usou toda a força dos advérbios e substantivos. Mas um dia o texto parou e n
ão gostou do que estava escrito. Estava a transformar-se num texto pomposo e sem sentido. Então o olhou para trás e recomeçou. Tirou as jóias e brilhantes, os artifícios e as marcas. Afastou os holofotes e quando pensou que ia ficar vazio, percebeu que afinal tinha todo o conteúdo para ser o que é hoje. Um texto com princípio, meio e fim.

Monopólio















Mesmo que fugaz,

condenado à partida,
mesmo antes da primeira jogada.
Há sempre a possibilidade
de avançar.
Duas voltas,
até à casa de partida
e depois recomeçar
uma e outra vez.
Com sorte faço um par
com os dados
da própria vida
que atiro.
Avanço duas voltas,
sem pensar,
passo pela casa de partida
e nada.
Com sorte
vou para a saída,
ou então fico presa
enquanto atiram os dados
da minha vida.
E eu vejo-a passar.

Setembro 2003

Branco e bonito


Recordo o teu sorriso,
branco e bonito.
Sentado na sala
olhas para os meus contornos
na penunbra da luz tardia.
Pedes-me um beijo,
digo que vou dormir.
Levas-me ao colo
sem ter de te pedir.

A roupa aquece
os corpos
e vai caindo
e nós
nos braços um do outro
vamos-nos
unindo.

Nada há a perder
nada é para esquecer.

O abraço forte,
o sorriso que não vejo,
mas adivinho...
branco e bonito,
na penumbra
da noite
tardia.

Dizes que ficas,
só mais um pouco.
Deixamos o sono cair
sobre o cansaço
do prazer
que nos faz sentir.

Pedes-me um beijo,
digo que vou dormir.
Dás-me um abraço,
sem ter de te pedir.

Julho de 2003

21.2.07

Uma cidade



















Uma rapariga atrasada. Um casal de reformados. Uma mãe atravessa a estrada. Uma criança ao colo a chorar. Um homem sai do trabalho. Um autocarro passa. Uma rapariga tropeça. Um miúdo ri-se. Uma senhora acelera. Uma mota vira. Um casal troca abraços. Um pai pega no filho em braços. Um velho chora. Uma mulher olha para mim de lado na paragem de autocarro. Os semáforos continuam. A estrada não pára. Vendem a Cais e jornais. Mais uma paragem. Entra uma mulata com cara de farta. Uma rapariga atrasada para um encontro. Um miúdo a chorar. Uma bola perdida. Rola até ao fundo do mar. Um casal apaixonado. Um homem a beber. Um rapaz dá um piropo. Uma rapariga a corar. Um casal aos gritos. Uma mulher a divorciar-se. Uma rapaz ri com cara de apaixonado. Um velho à espera com um ar cansado. Tudo é repetido. Tudo é um fardo, no ritmo da cidade, longo e atrasado.

16.2.07

Um dia nós aprendemos, de Shakespeare


Depois de algum tempo tu aprendes a diferença,
A subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E tu aprendes que amar não significa apoiares-te,
E que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contratos
E presentes não são promessas.
E começas a aceitar as tuas derrotas
Com a cabeça erguida e olhos adiante,
Com a graça de um adulto
E não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje,
Porque o terreno do amanhã
É incerto demais para os planos,
E o futuro tem o costume de cair no meio do vão.
Depois de um tempo tu aprendes
Que o sol queima se ficares exposto por muito tempo.
E aprendes que não importa o quanto tu te importes,
Algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceitas que não importa quão boa seja uma pessoa,
Ela vai ferir-te de vez em quando e tu precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir confiança
E apenas segundos para destruí-la,
E que tu podes fazer coisas num instante,
Das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que as verdadeiras amizades
Continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que tu tens na vida,
Mas quem tu tens na vida.
E que bons amigos são a família
Que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos
Se compreendemos que os amigos mudam,
Percebes que o teu melhor amigo e tu
Podem fazer qualquer coisa, ou nada,
E terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas
Com quem tu mais te importas na vida
São-te tomadas muito depressa,
Por isso sempre devemos deixar
As pessoas que amamos com palavras amorosas,
Pode ser a última vez que as vemos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes
Têm influência sobre nós,
Mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros,
Mas com o melhor que podes ser.
Descobres que levas muito tempo
Para te tornares na pessoa que queres ser,
E que o tempo é curto.
Aprendes que não importa aonde já chegaste,
Mas para onde estás a ir.
Mas se tu não sabes para onde estás a ir,
Qualquer lugar serve.
Aprendes que, ou tu controlas as tuas acções
Ou elas te controlarão,
E que ser flexível não significa
Ser fraco ou não ter personalidade,
Pois não importa quão delicada e frágil
Seja um situação,
Existem sempre dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas
Que fizeram o que era necessário fazer,
Enfrentando as conseqüências.
Aprendes que a paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes
A pessoa que tu esperas que te chute quando tu cais
É uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver
Com os tipos de experiência que tiveste
E o que tu aprendeste com elas
Do que com quantos aniversários já celebraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti
Do que tu supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança
Que os sonhos são uma parvoíce,
Poucas coisas são tão humilhantes
E seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprendes que quando estás com raiva
Tens o direito de estar com raiva,
Mas isso não te dá o direito de seres cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama
Da forma que tu queres que te ame,
Não significa que esse alguém
Não te ame com tudo o que pode,
Pois existem pessoas que nos amam,
Mas simplesmente não sabem
Como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente
Ser perdoado por alguém,
Algumas vezes tu tens que aprender
A perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas,
Tu serás em algum momento condenado.
Aprendes que não importa
Em quantos pedaços o teu coração foi partido,
O mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo
Que possa voltar para trás,
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma,
Ao invés de esperares que alguém te traga... flores.
E tu aprendes que realmente podes suportar...
Que realmente és forte,
E que podes ir muito mais longe
Mesmo depois de pensares que não podes mais.
E que realmente a vida tem valor
E que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras
E fazem-nos perder
O bem que poderíamos conquistar,
Se não fosse o medo de o tentar...

14.2.07

Morri



Morri

Passeio na calma, por isso sei que morri.
Não é tão mau como pensei.
Não me dói, mas não sei ainda.
Ainda não sei muito bem porque estou aqui.
Não sei se quero ficar já aqui.
Lembro-me das multicores de coisas boas.
Vou ou fico?
Lembro-me do amarelo confusão.
Repetido. Repetido.
Onde fico?
Volto para a confusão que se repete.
Onde fico?
Num ritmo repetido.
Onde fico?
......................
Onde é que eu fico?
Vou ou fico?
Viro!
O amarelo confusão sobe
enquanto eu desço o caminho da minha indecisão
e continuo sempre com a mesma pergunta no espírito:
Vou ou fico?
Toco nas coisas para ver se ainda as sinto.
Mas nada!
Sou um vazio cheio de tudo a tentar manter-se vivo.
Mas estou do lado errado do rio.
Vou ou fico?
Uma luz, branca, forte e cada vez mais perto
parece querer dizer-me o caminho.
E eu grito: VOU OU FICO?
Acho que vou.
Respiro!
Sossego
Adeus confusão, adeus caixão.
Agora sim.
Morri.
Fim.

9.2.07

O meu corpo de quem é?


















Nasço com ele e vivo com ele todos os dias, há quase 30 anos. Numa relação de estima e cuidado, e por vezes de raiva e desagrado. Vivo com ele 24 horas sobre 24 horas e é ele que me leva onde quero, embora, nem sempre tão depressa como eu quero. Mas ele tem as suas limitações e eu tenho de o respeitar por isso. Também se ressente, também sofre. Também tem sentimentos. O meu corpo fala com os outros e muito comigo. Por isso, às vezes nem sei o que lhe digo, mas sei que ele me está a ouvir no suspiro.
O meu corpo é só meu desde que o tenho comigo e com ele faço o que quero, quando quero e como quero. Tudo o que o meu corpo produz e gera é meu também e é a mim que compete tomar uma decisão, depois de falar com ele. Uma decisão a dois. Entre mim e o meu corpo.
O meu corpo é meu. Os pelos, os cabelos, os sinais, as borbulhas, as unhas, as marcas, as cicatrizes, as lágrimas, o sangue, o pus. Tudo, tudo meu. Quando morrer pode ser da ciência, pode ser para os outros, mas enquanto eu for viva o meu corpo será só meu e será dos dois a decisão do que acontece com ele. Ninguém o pode prender, ninguém o pode obrigar, ninguém o pode violar. Mas a verdade, é que mesmo que eu acredite que ninguém pode, a verdade é que o podem prender, o podem obrigar e o podem violar, mesmo que eu não concorde.
Outro ser, a quem o meu corpo não pertence, acha-se no direito de vir e dizer o que eu posso e não posso fazer com ele. Outro ser que tem o seu corpo, quer mandar no meu. Mas porquê? Afinal, o meu corpo de quem é?

6.2.07

Bengalas

As bengalas têm várias formas, cores e tamanhos. Estão normalmente disponíveis, no corredor de um Hospital, nas lojas de ortopedia, nas clínicas, centros de saúde e por vezes perdidas no meio da rua.
As bengalas têm como principal função ajudar aqueles que, por qualquer motivo, perderam a capacidade de locomoção na sua plenitude. Que precisam de ajuda para se endireitar, andar mais seguramente, ou de uma apoio para os primeiros passos após uma recuperação. É para isso que elas servem. As bengalas de madeira, de ferro e de plástico. É para isso também que servem as bengalas humanas. Pessoas disponíveis, como se num corredor de hospital estivessem encostadas, à espera que os coxos e enjeitados peguem nelas, e as usem para dar os primeiros passos, até conseguirem andar pelas suas próprias pernas. No corredor são deixadas as bengalas que já não são precisas. As de madeira, de ferro, de plástico e as humanas.

Dedicado à Sofia. Para que nunca mais deixes que façam de ti uma bengala humana.

2.2.07

Chuva


















Cruzei-me contigo e uma gota caiu seca no chão. Olhei para o céu e lá prendi as outras gotas todas, com fios e pontos, num lugar que só eu sei, para que não caiam mais no chão. Vou deixá-las lá ficar, para que o céu tenha sempre chuva e os meus olhos nunca mais tenham água para chorar.

1.2.07

Tudo bem?


Sim. Está tudo bem. Está sempre tudo bem, ou não? Três palavrinhas apenas fazem-nos esquecer. Há quatro anos sem um aumento, nem ajuste no ordenado, mas está tudo bem. Desde que dê para pagar a casa e o carro. O petróleo a subir e os juros a aumentar. Precisamos da água, do gás e da luz para viver. Na comida não podemos poupar, temos os filhos a crescer. Livros e música para quê? Afinal, temos as contas para nos entreter. Decide-se onde cortar. Corta-se na vida. Na alegria.
Então, o que é que podemos fazer? Apertamos mais o cinto, mas tudo bem, afinal ser magro é saudável. Ser pobre é que não. Faz bem à saúde do Estado andar a população com o coração na mão. Mas tudo bem. Está tudo bem. Quem se importa com o do lado, quando tem um milhão?
Ficar doente não é opção, mas Deus queira que não. Ficar de baixa sem receber é o preço a pagar, mais o dos medicamentos e das consultas, isto se não houver exames a acrescentar. No final ficamos pior do que estávamos, com o valor a pagar. Mas se um amigo nos encontra na rua e nos pergunta, claro que está tudo bem. Nem que o marido nos bata em casa, ou ande metido com alguém.
Sim. Está tudo bem, pelo menos por palavras, que têm o dom de nos fazer esquecer, por momentos, o desalento em que estamos.

30.1.07

Estar ausente


















Está na moda estar ausente. Seja pela vida ou pela net. Pelo telefone ou simplesmente nas conversas do coração. Está na moda estar ausente, não dizer o que se pensa, nem dizer o que se sente. Que é como quem está, sem estar, quem não dá opinião, mais vai dizendo que sim e vai dizendo que não. Que é como quem não assume, não se envolve,

mas que está lá deixada ao Deus dará. Que aceita e festeja e brinda e graceja. Mas não está ali. Está para ali. Está ausente porque está na moda. Faz pose de indiferença para que não se dê pela sua presença. E é um incómodo dar por ela, quando a única coisa que a ausência quer é estar presente, estando ausente.

26.1.07

Why?


Para quê tantas palavras. Para quê tantas conversas. Quando tudo o que se diz não passam de tretas. Para quê tanta promessa. Para quê tanta atenção, se ao virar da esquina todos tiramos a máscara que usámos com convicção. Para quê tanta mentira. Para quê tanta verdade. Se ao fechar a porta revelamos a nossa pura personalidade. Why do clowns will always be clowns playing dumm, and darlings will always be darlings playing fun, if all we have in the end is our souls sleeping in the sun...

Estás do outro lado














Estás do outro lado.

O meu outro eu está longe de mim.
Está do outro lado.
Uma lente vê o teu corpo nu,
preto, branco e estrelado.
Eu vejo-o com mil cores, quando está comigo deitado.
Uma lente separa-me de ti.
Estás do outro lado,
lindo e apaixonado.
Quero reter-te num retrato do que és
quando olho para nós
fechados no quarto.
És o outro que está ali,
mas serás sempre meu
enquanto estiveres do meu lado



12.1.07

Perfume























Tinto


Seduz os sentidos.
Revela segredos, quando se solta.
Primeiro vêm os aromas
mais voláteis,
um de cada vez.
Depois,
tocam-nos no corpo
as notas de coração.
O tempo traz o doce,
o ácido ou o tanino.
E a nota de fundo
no fim de boca,
traz a rendição.



Branco

Floral, verde,
frutado, oriental ou suave.
Assim nos leva
o sentido do olfacto
na boca do frasco.
Solta-se o bouquet
de notas verdes e
um leve giro no copo,
solta o corpo
e a madeira.
No fim de boca,
toca a nota de fundo.
A última
e derradeira.

Pecados


1


Uma porta abre. Pesada.
Silêncio.
Fica no lugar.
Ser espectador é seguro.
Tentador.
Entrar é uma mistura.
Querer e saciar.
A dúvida está lá fora.
À espera.
Vamos ou ficamos?


2

No “se” não se fica.
Com certeza de nada.
Só se quer.
Fazer. Fazer. Fazer.
Nada é muito pouco
para o que se pode ter.
Fazer. Está prestes.
E depois...
O pecado deixou-se
cometer.


3


Abre-se com vontade.
E de uma vez só, vai.
Por luxúria.
Não devo, mas posso.
Vou fazer. Só pelo prazer.
Para experimentar.
Pela culpa e castigo.
Tem de se ser.
Vou ganhar ou perder.


4


É o que nos move.
Pelo estímulo, pelo prazer. Pelo depois.
Pelo segredo, pela descoberta.
É o que nos move.
Às escondidas. Atrás das portas.
Pela sombra.
Porque quer ser vencido.
Pelo castigo.
Não se deve.
Por isso mesmo.




10.1.07

Platónico


















1

Será que sentes o mesmo ou isto é só comigo? Fico assim, no ar, envolvido pelo aroma que me toca por dentro. Eu não sei, mas fico assim solto, contigo. Acho que é amor, mas não importa, desde que seja tinto a cor que sinto.

2

Podia ser uma declaração de amor. Mas não é. É algo que se diz sem se dizer, que quero guardar para sempre, mas que me foge. É etéreo, mas já nem isso quero saber, desde que seja branco a cor que fica do encanto.

3

Depois de todas as palavras terem sido ditas e de todos os sons terem sido escritos, resta um nada que se diz no silêncio. Entre o fresco da boca e o pousar, só quero ver, para que tudo mostre a sua cor rosé e eu saiba a verdade tal como ela é.

9.1.07

As coisas simples da vida, ou, a vida é feita de coisas simples.


Pim...pam...pum... um ovo cozido, camarão, molho cocktail e uma cerveja na mão. Meia meloa, umas fatias de presunto, outra cerveja e tchim tchim. Uns ténis, uma calçada... abracadabra... um fim de tarde e uma garrafa. Água.
Uma estrada. A companhia perfeita.
Uma folha e uma caneta. Escrever uma carta.
Um rádio sintonizado numa balada. Um chá gelado e mais nada.

4.1.07

Olhos grandes



















Fotografia de Patrícia Lima