4.3.09

Os bancos ainda são o que eram


E eu, também.
Ontem passei uma boa hora de almoço no banco onde fui crescendo. O balcão, em Algés, foi aberto pelo meu Pai, na altura o gerente, na altura ainda com bigodaça. Na altura, eu ainda não tinha direito a opinião, nem cartão, e apesar de algum dinheiro poupado para mim, pelos meus entes queridos, também não tinha mão nesse património, até ao dia que a data do B.I. me permitiu. Lembro-me bem da primeira conta Jovem que o meu Pai me abriu, tendo guardado para mim o número mais bonito. Lembro-me de aos 14 anos, ser detentora de um cartão multibanco todo colorido, com orgulho. Coisa que na altura ninguém tinha e equivale hoje em dia ao sentimento das primeiras crianças a terem telemóvel.
Ia algumas vezes ter com o meu Pai, para almoçar ou só de visita, e confesso, hoje, porque já passou tempo suficiente para não ter vergonha, que me sentia importante por ir ter com o meu Pai, porque ele era “o” gerente. Conhecia todos os que lá trabalhavam, e uma dessas pessoas ainda lá trabalha, estes anos todos passados. Contudo, isso nunca me deu para querer seguir as suas passadas, pelo contrário. Fugir delas, fugir dos números, das contas, do trabalho chato. Em criança tinha piada brincar aos “bancos” e usar todas aquelas folhas timbradas e cheques e carteirinhas e calculadoras de rolo e carimbos velhos que o meu Pai me arranjava, mas na altura de decidir um caminho a sério, mais ou menos pela mesma altura em que tive o meu primeiro cartão multibanco, esse nem me passou pela cabeça (apesar da insistência familiar pela área de economia).
E ontem, à hora de almoço, tive de lá ir e sentei-me à espera. Admito que já não tem o mesmo charme, sem o meu Pai lá, e dedicando algum tempo à observação percebemos os pequenos danos do tempo. As rugas da idade também ali chegaram.
E enquanto esperava e observava, tive a companhia de um simpático senhor Fivelin, com exactamente 82 anos, 5 meses e 3 dias. Esse tempo todo, todos os dias contados, todos os dias actualizado, dizia ele. E mais pessoas iam entrando no banco e à conversa se juntavam. Cumprimentos de boas tardes eram estendidos a todos, uma ou outra pergunta mais pessoal a uma funcionária, a minha gerente que tinha voltado de baixa de parto e a conversa consequente, o senhor da Esegur com quem uma senhora castiça se metia, de cada vez que ele passava com os sacos do dinheiro.
Saí do banco com uma sensação da minha madura infância. E mesmo com as rugas do tempo nas paredes, as lâmpadas fluorescentes desemparelhadas, os fios enrolados pelo chão e o cinzento plástico démodé, mesmo assim apreciei o convívio salutar, e tão desprendido, entre um grupo de pessoas, que aparentemente não tendo nada a ver umas com as outras, têm. A humanidade e o seu banco.



1 comentário:

Ori disse...

...isto pa te dizer as tuas narrativas são ... como dizer ... gosto! É que gosto mesmo de te ler. bjocas :)