17.10.07

30 (14/10/1977)

Lembra-se de ir brincar para o jardim do Campo Grande e de andar numa bicicleta com duas rodinhas suplementares atrás para equilibrar. Lembra-se de dar comida aos patos e de ter sido bicada nas costas por um cisne gigante. Mas não se lembra de ter chorado ou gritado. Lembra-se de andar de cadeira de baloiço e cair. Mas não se lembra da dor. Lembra-se do dia em que lhe deram o cão e de lhe atirar estrelitas para o fazer escorregar no encerado chão da cozinha. Lembra-se do Professor Barbosa do sétimo ano, mas não se lembra do elogio que ele fez à composição que escreveu sem começar com "era uma vez". Lembra-se de ter ido à enfermaria do colégio levar uma vacina e ter desmaiado. Lembra-se do queque que lhe deram a seguir, de ir zonza para a aula de matemática e de não se lembrar o que era um triângulo escaleno. Lembra-se da professora com a sua enorme verruga, mandar as suas colegas limpar o chão molhado da chuva, mas não se lembra do que era chuva.
Lembra-se de ajudar a mãe a fazer filhoses no Natal e de procurar as prendas escondidas em casa, desembrulhar, brincar com elas, e voltar a embrulhá-las. Não se lembra das viagens de carro para o Algarve. Mas lembra-se de saltar do pontão na ilha da Fuzeta e nadar ao lado das raias, de apanhar camarões com a mão e perder as raquetes do sobrinho da vizinha. Não se lembra do raspanete. Lembra-se da saia rodada colorida da mini-up que a mãe lhe comprou na loja O balão, no Rossio, e de se orgulhar dela na colónia de férias em Almocageme.
Lembra-se do rapaz que lhe quis dar o primeiro beijo, mas não se lembra do primeiro beijo. Lembra-se do primeiro namorado e dos telefonemas às 5 da tarde que estranhava. Não se lembra quando foi o último. Lembra-se de ter saudades da avô, mesmo sem se lembrar da cara dela, só do cheiro. Lembra-se de levar o cão ao veterinário e de não o voltar a ver. Lembra-se do magusto na Ericeira, em que o avô caiu. Não se lembra como chamou a ambulância e como o levou para o Hospital. Lembra-se de ser responsável, mas não dos disparates. Lembra-se de todos os sonhos de adolescente. Não se lembra de os ter concretizado todos. Lembra-se de ser criança,
de ser adolescente e de ser adulta. Mas não se lembra de ser alguém e ter 30 anos.

3 comentários:

Zofia disse...

Ta tao bonito!!!!

c disse...

muito bonito.

:)

stories behind objects disse...

lindo, lindo, lindo.

eu tenho 31 e não me lembro de ter 30 ; ).

beijos bonitos, bonitos como o teu texto.