2.3.07
Branco e bonito
Recordo o teu sorriso,
branco e bonito.
Sentado na sala
olhas para os meus contornos
na penunbra da luz tardia.
Pedes-me um beijo,
digo que vou dormir.
Levas-me ao colo
sem ter de te pedir.
A roupa aquece
os corpos
e vai caindo
e nós
nos braços um do outro
vamos-nos
unindo.
Nada há a perder
nada é para esquecer.
O abraço forte,
o sorriso que não vejo,
mas adivinho...
branco e bonito,
na penumbra
da noite
tardia.
Dizes que ficas,
só mais um pouco.
Deixamos o sono cair
sobre o cansaço
do prazer
que nos faz sentir.
Pedes-me um beijo,
digo que vou dormir.
Dás-me um abraço,
sem ter de te pedir.
Julho de 2003
21.2.07
Uma cidade

Uma rapariga atrasada. Um casal de reformados. Uma mãe atravessa a estrada. Uma criança ao colo a chorar. Um homem sai do trabalho. Um autocarro passa. Uma rapariga tropeça. Um miúdo ri-se. Uma senhora acelera. Uma mota vira. Um casal troca abraços. Um pai pega no filho em braços. Um velho chora. Uma mulher olha para mim de lado na paragem de autocarro. Os semáforos continuam. A estrada não pára. Vendem a Cais e jornais. Mais uma paragem. Entra uma mulata com cara de farta. Uma rapariga atrasada para um encontro. Um miúdo a chorar. Uma bola perdida. Rola até ao fundo do mar. Um casal apaixonado. Um homem a beber. Um rapaz dá um piropo. Uma rapariga a corar. Um casal aos gritos. Uma mulher a divorciar-se. Uma rapaz ri com cara de apaixonado. Um velho à espera com um ar cansado. Tudo é repetido. Tudo é um fardo, no ritmo da cidade, longo e atrasado.
16.2.07
Um dia nós aprendemos, de Shakespeare
Depois de algum tempo tu aprendes a diferença,
A subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma.
E tu aprendes que amar não significa apoiares-te,
E que companhia nem sempre significa segurança.
E começas a aprender que beijos não são contratos
E presentes não são promessas.
E começas a aceitar as tuas derrotas
Com a cabeça erguida e olhos adiante,
Com a graça de um adulto
E não com a tristeza de uma criança.
E aprendes a construir todas as tuas estradas no hoje,
Porque o terreno do amanhã
É incerto demais para os planos,
E o futuro tem o costume de cair no meio do vão.
Depois de um tempo tu aprendes
Que o sol queima se ficares exposto por muito tempo.
E aprendes que não importa o quanto tu te importes,
Algumas pessoas simplesmente não se importam...
E aceitas que não importa quão boa seja uma pessoa,
Ela vai ferir-te de vez em quando e tu precisas perdoá-la por isso.
Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais.
Descobres que se leva anos para se construir confiança
E apenas segundos para destruí-la,
E que tu podes fazer coisas num instante,
Das quais te arrependerás para o resto da vida.
Aprendes que as verdadeiras amizades
Continuam a crescer mesmo a longas distâncias.
E o que importa não é o que tu tens na vida,
Mas quem tu tens na vida.
E que bons amigos são a família
Que nos permitiram escolher.
Aprendes que não temos que mudar de amigos
Se compreendemos que os amigos mudam,
Percebes que o teu melhor amigo e tu
Podem fazer qualquer coisa, ou nada,
E terem bons momentos juntos.
Descobres que as pessoas
Com quem tu mais te importas na vida
São-te tomadas muito depressa,
Por isso sempre devemos deixar
As pessoas que amamos com palavras amorosas,
Pode ser a última vez que as vemos.
Aprendes que as circunstâncias e os ambientes
Têm influência sobre nós,
Mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros,
Mas com o melhor que podes ser.
Descobres que levas muito tempo
Para te tornares na pessoa que queres ser,
E que o tempo é curto.
Aprendes que não importa aonde já chegaste,
Mas para onde estás a ir.
Mas se tu não sabes para onde estás a ir,
Qualquer lugar serve.
Aprendes que, ou tu controlas as tuas acções
Ou elas te controlarão,
E que ser flexível não significa
Ser fraco ou não ter personalidade,
Pois não importa quão delicada e frágil
Seja um situação,
Existem sempre dois lados.
Aprendes que heróis são pessoas
Que fizeram o que era necessário fazer,
Enfrentando as conseqüências.
Aprendes que a paciência requer muita prática.
Descobres que algumas vezes
A pessoa que tu esperas que te chute quando tu cais
É uma das poucas que te ajuda a levantar.
Aprendes que maturidade tem mais a ver
Com os tipos de experiência que tiveste
E o que tu aprendeste com elas
Do que com quantos aniversários já celebraste.
Aprendes que há mais dos teus pais em ti
Do que tu supunhas.
Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança
Que os sonhos são uma parvoíce,
Poucas coisas são tão humilhantes
E seria uma tragédia se ela acreditasse nisso.
Aprendes que quando estás com raiva
Tens o direito de estar com raiva,
Mas isso não te dá o direito de seres cruel.
Descobres que só porque alguém não te ama
Da forma que tu queres que te ame,
Não significa que esse alguém
Não te ame com tudo o que pode,
Pois existem pessoas que nos amam,
Mas simplesmente não sabem
Como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente
Ser perdoado por alguém,
Algumas vezes tu tens que aprender
A perdoar-te a ti mesmo.
Aprendes que com a mesma severidade com que julgas,
Tu serás em algum momento condenado.
Aprendes que não importa
Em quantos pedaços o teu coração foi partido,
O mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo
Que possa voltar para trás,
Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma,
Ao invés de esperares que alguém te traga... flores.
E tu aprendes que realmente podes suportar...
Que realmente és forte,
E que podes ir muito mais longe
Mesmo depois de pensares que não podes mais.
E que realmente a vida tem valor
E que tu tens valor diante da vida!
As nossas dádivas são traidoras
E fazem-nos perder
O bem que poderíamos conquistar,
Se não fosse o medo de o tentar...
14.2.07
Morri
Morri
Passeio na calma, por isso sei que morri.
Não é tão mau como pensei.
Não me dói, mas não sei ainda.
Ainda não sei muito bem porque estou aqui.
Não sei se quero ficar já aqui.
Lembro-me das multicores de coisas boas.
Vou ou fico?
Lembro-me do amarelo confusão.
Repetido. Repetido.
Onde fico?
Volto para a confusão que se repete.
Onde fico?
Num ritmo repetido.
Onde fico?
......................
Onde é que eu fico?
Vou ou fico?
Viro!
O amarelo confusão sobe
enquanto eu desço o caminho da minha indecisão
e continuo sempre com a mesma pergunta no espírito:
Vou ou fico?
Toco nas coisas para ver se ainda as sinto.
Mas nada!
Sou um vazio cheio de tudo a tentar manter-se vivo.
Mas estou do lado errado do rio.
Vou ou fico?
Uma luz, branca, forte e cada vez mais perto
parece querer dizer-me o caminho.
E eu grito: VOU OU FICO?
Acho que vou.
Respiro!
Sossego
Adeus confusão, adeus caixão.
Agora sim.
Morri.
Fim.
9.2.07
O meu corpo de quem é?

Nasço com ele e vivo com ele todos os dias, há quase 30 anos. Numa relação de estima e cuidado, e por vezes de raiva e desagrado. Vivo com ele 24 horas sobre 24 horas e é ele que me leva onde quero, embora, nem sempre tão depressa como eu quero. Mas ele tem as suas limitações e eu tenho de o respeitar por isso. Também se ressente, também sofre. Também tem sentimentos. O meu corpo fala com os outros e muito comigo. Por isso, às vezes nem sei o que lhe digo, mas sei que ele me está a ouvir no suspiro.
O meu corpo é só meu desde que o tenho comigo e com ele faço o que quero, quando quero e como quero. Tudo o que o meu corpo produz e gera é meu também e é a mim que compete tomar uma decisão, depois de falar com ele. Uma decisão a dois. Entre mim e o meu corpo.
O meu corpo é meu. Os pelos, os cabelos, os sinais, as borbulhas, as unhas, as marcas, as cicatrizes, as lágrimas, o sangue, o pus. Tudo, tudo meu. Quando morrer pode ser da ciência, pode ser para os outros, mas enquanto eu for viva o meu corpo será só meu e será dos dois a decisão do que acontece com ele. Ninguém o pode prender, ninguém o pode obrigar, ninguém o pode violar. Mas a verdade, é que mesmo que eu acredite que ninguém pode, a verdade é que o podem prender, o podem obrigar e o podem violar, mesmo que eu não concorde.
Outro ser, a quem o meu corpo não pertence, acha-se no direito de vir e dizer o que eu posso e não posso fazer com ele. Outro ser que tem o seu corpo, quer mandar no meu. Mas porquê? Afinal, o meu corpo de quem é?
6.2.07
Bengalas
As bengalas têm várias formas, cores e tamanhos. Estão normalmente disponíveis, no corredor de um Hospital, nas lojas de ortopedia, nas clínicas, centros de saúde e por vezes perdidas no meio da rua.
As bengalas têm como principal função ajudar aqueles que, por qualquer motivo, perderam a capacidade de locomoção na sua plenitude. Que precisam de ajuda para se endireitar, andar mais seguramente, ou de uma apoio para os primeiros passos após uma recuperação. É para isso que elas servem. As bengalas de madeira, de ferro e de plástico. É para isso também que servem as bengalas humanas. Pessoas disponíveis, como se num corredor de hospital estivessem encostadas, à espera que os coxos e enjeitados peguem nelas, e as usem para dar os primeiros passos, até conseguirem andar pelas suas próprias pernas. No corredor são deixadas as bengalas que já não são precisas. As de madeira, de ferro, de plástico e as humanas.
Dedicado à Sofia. Para que nunca mais deixes que façam de ti uma bengala humana.
As bengalas têm como principal função ajudar aqueles que, por qualquer motivo, perderam a capacidade de locomoção na sua plenitude. Que precisam de ajuda para se endireitar, andar mais seguramente, ou de uma apoio para os primeiros passos após uma recuperação. É para isso que elas servem. As bengalas de madeira, de ferro e de plástico. É para isso também que servem as bengalas humanas. Pessoas disponíveis, como se num corredor de hospital estivessem encostadas, à espera que os coxos e enjeitados peguem nelas, e as usem para dar os primeiros passos, até conseguirem andar pelas suas próprias pernas. No corredor são deixadas as bengalas que já não são precisas. As de madeira, de ferro, de plástico e as humanas.
Dedicado à Sofia. Para que nunca mais deixes que façam de ti uma bengala humana.
2.2.07
Chuva
1.2.07
Tudo bem?
Sim. Está tudo bem. Está sempre tudo bem, ou não? Três palavrinhas apenas fazem-nos esquecer. Há quatro anos sem um aumento, nem ajuste no ordenado, mas está tudo bem. Desde que dê para pagar a casa e o carro. O petróleo a subir e os juros a aumentar. Precisamos da água, do gás e da luz para viver. Na comida não podemos poupar, temos os filhos a crescer. Livros e música para quê? Afinal, temos as contas para nos entreter. Decide-se onde cortar. Corta-se na vida. Na alegria.
Então, o que é que podemos fazer? Apertamos mais o cinto, mas tudo bem, afinal ser magro é saudável. Ser pobre é que não. Faz bem à saúde do Estado andar a população com o coração na mão. Mas tudo bem. Está tudo bem. Quem se importa com o do lado, quando tem um milhão?
Ficar doente não é opção, mas Deus queira que não. Ficar de baixa sem receber é o preço a pagar, mais o dos medicamentos e das consultas, isto se não houver exames a acrescentar. No final ficamos pior do que estávamos, com o valor a pagar. Mas se um amigo nos encontra na rua e nos pergunta, claro que está tudo bem. Nem que o marido nos bata em casa, ou ande metido com alguém.
Sim. Está tudo bem, pelo menos por palavras, que têm o dom de nos fazer esquecer, por momentos, o desalento em que estamos.
30.1.07
Estar ausente

Está na moda estar ausente. Seja pela vida ou pela net. Pelo telefone ou simplesmente nas conversas do coração. Está na moda estar ausente, não dizer o que se pensa, nem dizer o que se sente. Que é como quem está, sem estar, quem não dá opinião, mais vai dizendo que sim e vai dizendo que não. Que é como quem não assume, não se envolve,
mas que está lá deixada ao Deus dará. Que aceita e festeja e brinda e graceja. Mas não está ali. Está para ali. Está ausente porque está na moda. Faz pose de indiferença para que não se dê pela sua presença. E é um incómodo dar por ela, quando a única coisa que a ausência quer é estar presente, estando ausente.
26.1.07
Why?
Para quê tantas palavras. Para quê tantas conversas. Quando tudo o que se diz não passam de tretas. Para quê tanta promessa. Para quê tanta atenção, se ao virar da esquina todos tiramos a máscara que usámos com convicção. Para quê tanta mentira. Para quê tanta verdade. Se ao fechar a porta revelamos a nossa pura personalidade. Why do clowns will always be clowns playing dumm, and darlings will always be darlings playing fun, if all we have in the end is our souls sleeping in the sun...
Estás do outro lado

Estás do outro lado.
O meu outro eu está longe de mim.
Está do outro lado.
Uma lente vê o teu corpo nu,
preto, branco e estrelado.
Eu vejo-o com mil cores, quando está comigo deitado.
Uma lente separa-me de ti.
Estás do outro lado,
lindo e apaixonado.
Quero reter-te num retrato do que és
quando olho para nós
fechados no quarto.
És o outro que está ali,
mas serás sempre meu
enquanto estiveres do meu lado
12.1.07
Perfume

Tinto
Seduz os sentidos.
Revela segredos, quando se solta.
Primeiro vêm os aromas
mais voláteis,
um de cada vez.
Depois,
tocam-nos no corpo
as notas de coração.
O tempo traz o doce,
o ácido ou o tanino.
E a nota de fundo
no fim de boca,
traz a rendição.
Branco
Floral, verde,
frutado, oriental ou suave.
Assim nos leva
o sentido do olfacto
na boca do frasco.
Solta-se o bouquet
de notas verdes e
um leve giro no copo,
solta o corpo
e a madeira.
No fim de boca,
toca a nota de fundo.
A última
e derradeira.
Pecados
1
Uma porta abre. Pesada.
Silêncio.
Fica no lugar.
Ser espectador é seguro.
Tentador.
Entrar é uma mistura.
Querer e saciar.
A dúvida está lá fora.
À espera.
Vamos ou ficamos?
2
No “se” não se fica.
Com certeza de nada.
Só se quer.
Fazer. Fazer. Fazer.
Nada é muito pouco
para o que se pode ter.
Fazer. Está prestes.
E depois...
O pecado deixou-se
cometer.
3
Abre-se com vontade.
E de uma vez só, vai.
Por luxúria.
Não devo, mas posso.
Vou fazer. Só pelo prazer.
Para experimentar.
Pela culpa e castigo.
Tem de se ser.
Vou ganhar ou perder.
4
É o que nos move.
Pelo estímulo, pelo prazer. Pelo depois.
Pelo segredo, pela descoberta.
É o que nos move.
Às escondidas. Atrás das portas.
Pela sombra.
Porque quer ser vencido.
Pelo castigo.
Não se deve.
Por isso mesmo.
10.1.07
Platónico

1
Será que sentes o mesmo ou isto é só comigo? Fico assim, no ar, envolvido pelo aroma que me toca por dentro. Eu não sei, mas fico assim solto, contigo. Acho que é amor, mas não importa, desde que seja tinto a cor que sinto.
2
Podia ser uma declaração de amor. Mas não é. É algo que se diz sem se dizer, que quero guardar para sempre, mas que me foge. É etéreo, mas já nem isso quero saber, desde que seja branco a cor que fica do encanto.
3
Depois de todas as palavras terem sido ditas e de todos os sons terem sido escritos, resta um nada que se diz no silêncio. Entre o fresco da boca e o pousar, só quero ver, para que tudo mostre a sua cor rosé e eu saiba a verdade tal como ela é.
9.1.07
As coisas simples da vida, ou, a vida é feita de coisas simples.
Pim...pam...pum... um ovo cozido, camarão, molho cocktail e uma cerveja na mão. Meia meloa, umas fatias de presunto, outra cerveja e tchim tchim. Uns ténis, uma calçada... abracadabra... um fim de tarde e uma garrafa. Água.
Uma estrada. A companhia perfeita.
Uma folha e uma caneta. Escrever uma carta.
Um rádio sintonizado numa balada. Um chá gelado e mais nada.
4.1.07
Olhos grandes
Gosto de olhos grandes
que olhem para mim
esbugalhados e pasmados
a transbordar de satisfação.
Gosto de olhos grandes
daqueles que enchem
uma sala e o coração.
Gosto de olhos grandes demais
para uma cara,
mas que demais nunca são.
Gosto daqueles olhos grandes,
definidos e lindos que nos devoram.
Que não pedem, que só dão.
Aqueles olhos grandes,
que mesmo sem quererem
têm toda a nossa atenção.
3.1.07
Pregos
Tenho o coração cheio de pregos de açúcar e algodão doce. Mais difíceis de tirar do que os de ferro. Tenho o coração cheio de cáries provocadas pelo açúcar. Mais difíceis de tratar porque um dentista nunca vai conseguir lá chegar.
18.12.06
Do you ever think
In some moments
When everything stops
Do you ever think about?
Because the place
is not the same
neither the fame
stays always
in the same face.
Do you ever think about?
Why darlings are
always darlings
and clowns always clowns
playing dumm.
Do you ever think about why
the place are always
in the same place
and only the face
you see
has changed...
Antes que se apague a fé
Vou apagar-te de mim. Vou apagar tudo o que vivemos. Literalmente.
As fotografias. Vídeos. Mensagens. E até as recordações boas que tenho de ti.
As marcas dos teus ténis na minha varanda, o teu cheiro nos meus lençóis, o teu gel de banho na minha banheira. Vou esfregar o meu corpo com álcool e assim vou apagar-te de mim.
15.12.06
Libelo - Vinicius de Moraes
De que mais precisa um homem senão de um pedaço de mar e um barco com o nome da amiga, e uma linha e um anzol para pescar?
E enquanto pescando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem, senão de suas mãos, uma para o caniço, outra para o queixo, que é para ele poder se perder no infinito, e uma garrafa de cachaça para puxar tristeza, e um pouco de pensamento para pensar até se perder no infinito...
De que mais precisa um homem, senão de um pedaço de terra - um pedaço bem verde de terra - e uma casa, não grande, branquinha, com uma horta e um modesto pomar; e um jardim, que um jardim é importante, carregado de flor de cheirar ?
E enquanto morando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem, senão de suas mãos para mexer a terra e arranhar uns acordes de violão quando a noite se faz de luar, e uma garrafa de uísque para puxar mistério, que casa sem mistério não valor morar...
De que mais precisa um homem senão de um amigo para ele gostar, um amigo bem seco, bem simples, desses que nem precisa falar - basta olhar – um desses que desmereça um pouco da amizade, de um amigo para paz e para briga, um amigo de paz e de bar?
E enquanto passando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem, senão de suas mãos para apertar as mãos do amigo depois das ausências, e para bater nas costas do amigo, e para discutir com o amigo e para servir bebida à vontade ao amigo?
De que mais precisa um homem senão de uma mulher para ele amar, uma mulher com dois seios e um ventre, e uma certa expressão singular?
E enquanto pensando, enquanto esperando, de que mais precisa um homem senão de um carinho de mulher quando a tristeza o derruba, ou o destino o carrega em sua onda sem rumo ?
Sim, de que mais precisa um homem senão de suas mãos e da mulher – as únicas coisas livres que lhe restam para lutar pelo mar, pela terra, pelo amigo...
Vinicius de Moraes
14.12.06
Gorgeous
Gorgeous
...
Gorgeous
...
Gorgeous deserves your immediate attention
Gorgeous makes effort look effortless
Gorgeous stays up late and still looks gorgeous
Gorgeous has no love for logic
Gorgeous loves fast
Everyone cares when gorgeous says
Gorgeous gets in everywhere
Gorgeous can’t be ordinary, even if it tries
Gorgeous pays for itself for the first 5 seconds
Gorgeous don’t care at all what others are doing
Gorgeous was born that way
Gorgeous trumps everything
Gorgeous is worth it
Texto do anúncio Jaguar - Gorgeous
12.12.06
Ela Não, Ele
Ele tinha namorada. Ela não sei.
Ele flirtava com ela. Ela deixava.
Ele enchia a namorada de beijos
A ela não. Mas queria.
Ele não assumia.
Ela também não.
Ele queria.
Ela dizia que talvez
um dia, talvez não.
Ele tinha namorada.
Ela não sabia.
Ele queria traí-la.
Ela talvez não.
Ele tinha desejo por ela.
Pela namorada não.
Ela deixava estar,
até tirar uma conclusão.
Ele desleixou-se
a flirtar com ela.
Ela deixou.
Ele queria só abraçá-la
Ela não.
Ele não queria saber.
Ela sim, até à exaustão.
Ele pensou que um dia
talvez pudesse dizer-lhe que não.
Ela enquanto não sabia, vivia naquela ilusão
Ele encontrou-se com ela.
E ela ficou à espera.
Descobriu o que ele queria
e disse-lhe NÃO!
11.12.06
1977
A short piece of my life.
77 was the year, where everything starts [Stop!]
I Lived on the top of the street
in a building full of green, Field? Was not that
screen [Scream!]
To call my best friend, that lived on the other side,
TV off, Computers on? Bye bye
we found outside a club, where boys can be boys,
like old times No girls at all
All the time I was in school,
we change our friends, we change our clothes
we kiss the girls because we need to,
it's an ego of a normal boy...
But why at that time, it was strange not to look or
act like a normal guy,
songs were made to make me cry,
and we can meet The Smiths at any time of our lives,
cause songs will help you every time, just try to wake
up one day rewind,
we were only 17, and then did you wait for the lonely
time
just to say like a normal guy, [HI] my bed its empty,
you want to try?
We grow as normal nature.
And we still believe that if we try THE BAND can save
your life.
can be such an easy thing, just think the kid you were
before
Creep was like a bomb. Share the songs with the
friends,
he will know your thoughts, he knows your songs, he
brings the light you wish,
it's the cure to yuor lonely time, he's a Jesus in a
genius way.
A lie, at that time it was just a way to put us by the
same side,
we were more then 17. At that time a lie means a
sacrifice,
everybody knows why,
but we were only... Again out of time, I know why we
will say good bye,
everybody knows why and we were almost 21, and then,
still you wait for a lonely time, just to say to a
normal guy??? normal guy???
My bed is empty...
Why at that time
it was just a way to put us by the same side, cause we
were more then 17
and then, still you wait till the end, to say like a
normal guy. goodbye...
A lie, at that time it was just a way to put us by the
same side,
cause we were almost 21, and then, still you wait
till the end,
to say like a normal guy.
goodbye... and why, why, why, why... [till fade]
Please, i'm 27 years old
The Gift, por kadaj
As árvores e os livros
As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Jorge Sousa Braga, in Herbário
Editora Assírio & Alvim
8.12.06
Goodbye
Ela preparava o jantar quando ele chegou e a abraçou por trás. Estava estranhamente carinhoso nesse dia. Disse que ia tomar um banho rápido e ia para junto dela.
Sem saber como nem porquê o telemóvel dele foi parar às mãos dela. Sem saber como nem porquê começou a mexer e a entrar. Mensagens recebidas, rascunhos, mensagens enviadas.
Sem saber como nem porquê ficou a saber o que dizia a outra mulher, os nomes e elogios que lhe fazia, as vontades que tinha. Sem querer saber como, nem porquê ficou a saber o porquê.
Dos abraços excessivos, dos constantes agrados, da falta de interesse.Dos incentivos para ela ir tomar café com as amigas ou passar o fim-de-semana com os pais.
Ficou a saber que não era por ela, mas pela companhia, pela incapacidade dele,
de estar sozinho, só para estar com alguém. Não importava quem.
Colocou o telemóvel onde estava.
Passou o resto do serão, com ele ao lado, como tantos outros.
Deitou-se na cama, da sua casa, onde o deixou deitar-se também.
Passou o dia, como tantos outros, a esconder e a querer chorar, mas sem.
Foi ter com ele ao fim do dia. Íam jantar. Esperou por ele à porta e em vez de lhe dar um beijo, disse-lhe apenas, goodbye.
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